Viver do Mar II
II.
- Eles estão chegando, eles estão chegando... Gritava desesperadamente na armação um dos serventes de terra, crioulo, que tem por nome Pedro. A armação da pescaria das baleias é o local onde fica o balcão chamado de fábrica, que é onde a baleia deixa de ser o que ela é e é transformada em outras coisas. Suas barbatanas são usadas para fazer espartilhos, o espermacete acaba virando vela, a carne se come e, portanto também se vende, mas o mais importante mesmo é o azeite que dela se tira sempre em grande quantidade de barris. Aliás, é por causa desse azeite que a gente pesca as baleias. No entanto, para realizar essa pesca tem que se ter autorização do Rei. O administrador da pescaria tem essa autorização e desde 1765 a gente pode pescar em todo o litoral se precisar. Mas não precisa, porque eles têm outras armações por aí pela colônia.
Os homens da armação logo começaram a se juntar. Outros serventes de terra, aventureiros, oficiais, feitores, porteiros, o sargento e o feitor-mor, todos apareceram para ver o resultado daquela empreitada no mar. A decepção foi generalizada.
- Oxe, aquela presepada toda pra ir pro mar logo cedo pra depois voltar e trazer só isso? Sussurrou José de Campos, preto forro e um dos serventes de terra.
- Cale a boca preto safado ou vai levar por sua ousadia, retrucou o feitor Bernardo Nogueira, homem branco, respeitado por todos pela sua seriedade no trabalho. E que para o azar do Zé do Campo estava pouco atrás dele, próximo o suficiente para ouvir a sua graça.
Quando a baleeira se aproximou alguns negros se apressaram, jogando-se ao mar, nadando até alcançar a embarcação e sua carga que vinha a reboque. Retirando as cordas do barco levaram-nas até o pequeno cais da armação onde outros negros, forros e escravos, esperavam a fim de arrastar a baleia até a ponta da entrada da fábrica.
- Façam duas filas e puxem a corda. Vamos lá homens, puxem as cordas. Tragam a baleia até a fábrica. Ordenava aos berros o Sargento Boaventura Francisco Real sendo prontamente atendido, e suas ordens repetidas pelos quatorze feitores da armação da ponta de Itaparica.
Enquanto atracamos ao lado do cais, o Sargento Boaventura acompanhado de José Soares, o Zé feitor, espera nosso desembarque.
- Quando vocês saíram daqui, contei oito no barco, agora só tem seis. O que foi que aconteceu? Perguntou Boaventura com ar de indignação.
- O Antonio e o Christovão foram afogados pelo mar na hora da tempestade. Respondi olhando para o feitor que agora se posicionava ao meu lado, como se me medindo. Encarei-o de volta e quando ia perguntar o que é que ele tava olhando...
- Pegamos um filhote, mas quando eles foram amarrar acabaram se afogando na agitação do mar. Nem deu pra ver direito por causa da chuva. Interveio Dionísio.
- É neguim saiu daqui dizendo que ia pegar isso e aquilo... Ironizou Zé feitor. Para sua surpresa ninguém disse nada. E como ninguém disse nada, eu também não disse. Dá resposta pra quê? Essa noite eu não tô a fim de confusão. O sargento fez mais algumas perguntas pro timoneiro e depois liberou a gente do resto do serviço.
A chuva voltou com toda força madrugada adentro, acompanhada por raios e trovoadas. Ainda assim, fomos todos a capela ao lado da fábrica, acender velas, pedir pelas almas dos pescadores mortos nessa viagem e agradecer por mais um dia de vida nessa labuta diária.