Referências sobre o Cabula

Referências sobre o Cabula

Descrevo agora um pequeno trecho interessante que encontrei no livro "Iconografia dos Deuses africanos no Candomblé da Bahia" p.269-271:

"Antigamente a área denominada Cabula era imensa, começava na parte baixa, subindo a ladeira (ladeira do cabula), atingindo o largo do Cabula e os vários caminhos que ligavam o Cabula eram também Cabula e se chamavam estrada do Cabula. Todo esse bairro era povoamento negro de moradia e culto, sobretudo de origem Congo e Angola. Havia Terreiros e sacerdotes famosos e de prestígio. Na década de 1790 havia uma sacerdotisa conhecida como Nicácia, muito famosa e com muito prestígio entre os negros, mas terrivelmente perseguida pela polícia, que sempre perseguiu os negros e suas casas de culto. De certa feita, o então Governador da Bahia, o Conde da Ponte (João de Saldanha da Gama de Melo e Torres) saiu de seus cuidados e mandou prendê-la por estar exercendo suas funções sacerdotais. Nicácia que era aleijada, foi presa e trazida do Cabula, com grande acompanhamento para a então chefatura da polícia no centro da cidade, exposta ao escárnio público. Nicácia faleceu em 14 de março de 1807 (13).

O termo Cabula vem do quicongo Kabula, que além de ser verbo (14) é nome próprio personativo feminino e também, nome de um ritmo religioso (15) muito tocado, cantado e dançado, daí o bairro tomar o nome do ritmo (16) frequentíssimo naquela área onde suas matas eram utilizadas pelos sacerdotes quicongos, mais conhecidos como zeladores de nkisi (força mágica, divindade) para dar grau a noviço, possuído pela nkita, espírito de seus ancestrais. A nkita passa o dia inteiro dentro das matas, somente antes do sol se pôr vai-se embora. Muito perigosa, podendo causar até a morte de quem passa pelo local, desapercebido. Para advertir a quem passa costuma-se colocar um mastro com uma bandeira branca, na entrada da mata. Também era área de povos Congo e Angola a parte baixa do Cabula, que se estendia até o local ainda hoje chamado ladeira do Bozó, cujo nome vem do quicongo mbóozo (significando feitiço, bruxaria) (17). A rua tomou esse nome em virtude de ali haver um gigantesco pé de Iroko, onde todos arreiam seus bozós ou ebó para os negros de procedencia nago-iorubá.Mais tarde começãm a chegar os nagôs, que aos poucos foram se alojando pela área, sendo atualmente, o Terreiro mais antigo do local o Ase Opo Afonja, fundado e plantado em 1910 por Oba biyi (Eugênia Ana dos Santos, Aninha)."

 

NOTAS:

(13) A. J. de Melo Morais, Brasil Histórico, 1868, RJ, 1867, p.6;

(14) K. E. Laman. Dictionaire Kikongo-français, avec une étude pnovétique décrivant les dialectes les plus importants de la langue dite Kikongo. Librarie Fak Fils. Georges Van Compenhent, Successeum, Bruxelles, 1936, p.199;

(15) Kazadi wa Mukuna. Contribuição Bantu na MPB. Global ed., s/d, SP, p.68,110-114;

(16) Waldelois Rego. Capoeira Angola: ensaio sócio-etnográfico. Ed. Itapuã, SSA, 1968, p.152;

(17) Acho que esqueci de anotar esse... foi mal!!!

 

Obs.: Meu françês (lá ele!!) é péssimo (aliás nem existe!!!), portanto não me questionem se o que transcrevi está certo ou não, porque eu não sei!! Transcrevi isso no ano 2000, não lembro nem de onde!!!!! Acho que talvez fosse da biblioteca do museu ali da Vitória... acho!